Uma artista ucraniana de Mariupol chama atenção para algo que pouco se fala sobre a guerra: a ruptura silenciosa entre os ucranianos que ficaram no país e os que partiram após a invasão russa. O gatilho foi simples — um colega ucraniano, vivendo no exterior, pediu para remarcar uma reunião, como se o mundo lá fora e o mundo dentro da Ucrânia funcionassem no mesmo ritmo.
Diana Berg, fundadora da iniciativa cultural Platform TU — hoje operando no exílio — conta que já estava acostumada a esse tipo de desencontro com colegas ocidentais. Eles pediam entrevistas com pessoas em Mariupol ocupada ou estranhavam quando ela não conseguia entrar numa videochamada no horário combinado. Ela havia feito as pazes com isso: eles simplesmente não sabem como é a guerra por dentro.
Mas quando o mesmo comportamento veio de um ucraniano, a sensação foi diferente. É aí que mora a ferida mais funda que ela descreve: não é raiva dos que saíram, mas uma espécie de distância que foi crescendo entre pessoas que um dia compartilhavam a mesma realidade e agora parecem habitar mundos distintos.
Segundo Berg, esse abismo vem carregado de emoções difíceis dos dois lados — raiva, culpa e vergonha. Quem ficou pode sentir abandono. Quem foi pode carregar o peso de ter partido. E nenhum dos dois lados tem necessariamente razão ou errado: a guerra simplesmente jogou as pessoas em trajetórias impossíveis de comparar.
O texto levanta uma questão que deve se tornar cada vez mais presente conforme a guerra se prolonga: quando — e como — essas duas Ucrânias vão se reencontrar? Por enquanto, parece que a distância entre elas segue crescendo, em silêncio, longe dos noticiários.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE