Em outubro de 1936, Samuel Beckett estava em Hamburgo observando alemães comuns enlouquecidos pelos discursos de Hitler — e já tinha certeza de que a paz não duraria muito. No dia 6 de outubro daquele ano, ele anotou no diário: ‘Eles vão precisar brigar em breve (ou explodir).’ Agora, quase 90 anos depois, esses registros foram publicados pela primeira vez.
Os seis cadernos que Beckett preencheu durante uma viagem de seis meses pela Alemanha — de setembro de 1936 a abril de 1937 — foram lançados pela editora alemã Suhrkamp no dia 20 de agosto deste ano. É a primeira vez que esse material vem a público, e ele cobre toda a jornada do escritor irlandês pelo país às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
A publicação derruba uma ideia bastante difundida sobre Beckett: a de que ele era um poeta do pessimismo puro, preocupado só com o desespero e a paralisia existencial, alheio à política do mundo real. Os diários mostram um autor atento, incomodado e bastante lúcido sobre o que estava vendo ao redor — incluindo o avanço do nazismo no cotidiano alemão.
O material oferece um olhar raro sobre como um intelectual estrangeiro percebia a Alemanha naquele período sombrio, antes mesmo de a guerra estourar. Beckett registrou não só o clima político, mas também seu próprio desconforto com o que encontrava — conversas, comportamentos e a atmosfera geral do regime.
Com a publicação, estudiosos e leitores ganham uma nova camada para entender a obra e o pensamento de um dos maiores escritores do século XX. A expectativa é que os diários gerem bastante debate sobre a relação entre arte, política e o papel do artista diante de momentos históricos extremos.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE