O escritor georgiano Archil Kikodze conta que, mesmo com protestos antigovernamentais em curso e jovens deixando o país, os festivais culturais de Tbilisi nunca estiveram tão cheios. No Festival Internacional de Literatura de Tbilisi, em setembro de 2025, os salões lotaram — e a presença de convidados estrangeiros foi recebida com gratidão quase emocionada.
O escritor islandês Sjón resumiu bem o clima do evento ao dizer que ‘eles querem que a gente pare de se ver, perca o contato, se sinta sozinho’ — referindo-se às forças obscuras que ele vê crescendo pelo mundo: populistas, fascistas e fundamentalistas. Esses encontros culturais viraram, nas palavras de Kikodze, um verdadeiro refúgio.
A Geórgia vive um momento politicamente tenso, com manifestações contra o governo se arrastando e parte da população, especialmente os mais jovens, optando por emigrar. Nesse cenário, a cultura virou um dos poucos espaços de resistência e de manutenção de laços comunitários.
Mas o quadro tem um lado sombrio: poetas e artistas georgianos estão sendo presos, e o país sente que a Europa fecha os olhos para isso. A sensação de abandono pelo bloco europeu pesa sobre quem ainda tenta segurar as pontas dentro do país.
O texto de Kikodze é um desabafo e um alerta: enquanto os festivais enchem de gente em busca de conexão e esperança, a repressão cultural segue avançando — e a pergunta que fica no ar é por quanto tempo a arte consegue resistir sem apoio de fora.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE