A Irlanda assume a presidência rotativa do Conselho da UE em 1º de julho, e já tem gente levantando a sobrancelha. O problema: justamente durante esses seis meses, a União Europeia vai renegociar suas regras de tecnologia e inteligência artificial — e a Irlanda é, há décadas, o lar europeu de gigantes como Google, Meta e Apple.
O argumento do artigo, escrito por Johnny Ryan, diretor da organização Enforce (ligada ao Conselho Irlandês para as Liberdades Civis), é direto: o Estado irlandês foi tão capturado pelas big techs que o país deveria se recusar a presidir qualquer negociação sobre soberania digital europeia. Em outras palavras: conflito de interesses na veia.
Para dar peso ao argumento, Ryan cita um episódio revelador da última vez que a Irlanda presidiu o Conselho da UE, em 2013. Um memorando interno do Facebook, que vazou, descreve uma reunião em que executivos da empresa se encontraram com o então primeiro-ministro irlandês Enda Kenny para reclamar das propostas do que viria a ser o GDPR — a lei europeia de proteção de dados. Segundo o documento, eles saíram da reunião entendendo que Kenny havia garantido que a Irlanda usaria sua ‘influência significativa’ para entregar um resultado ‘positivo’ para o Facebook. Houve até um jantar com políticos irlandeses de alto escalão para ‘trabalhar nas formas como os irlandeses poderiam ser úteis’.
O impacto potencial é grande: se a Irlanda conduzir as negociações com o mesmo espírito de 2013, as novas regras de IA e tecnologia da Europa podem sair bem mais favoráveis às empresas do que aos cidadãos. A dependência econômica do país em relação às multinacionais de tecnologia cria um incentivo estrutural para suavizar regulações.
A questão que fica no ar é se outros países membros ou o Parlamento Europeu vão pressionar por mais transparência — ou até exigir que a Irlanda se afaste dessas discussões específicas. Por enquanto, Dublin assume o posto sem nenhuma restrição formal, e o debate sobre quem realmente representa o interesse público nessas negociações promete esquentar nos próximos meses.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE