A escritora turco-britânica Elif Shafak conta que, quando chegou à Inglaterra há quase duas décadas, ficou impressionada com algo simples: dois debatedores que haviam se estranhado feio num evento sobre identidade britânica saíram juntos para tomar uma cerveja logo depois. Pra ela, vinda da Turquia e tendo vivido nos EUA pós-11 de setembro, aquilo pareceu quase mágico.
O ponto é que esse clima de ‘a gente discorda mas ainda se respeita’ parece ter evaporado no Reino Unido desde o referendo do Brexit, em 2016. Estudos indicam que o país está mais dividido do que nunca, e as pessoas estão cada vez mais evitando falar sobre assuntos difíceis com quem pensa diferente.
Shafak cresceu na Turquia, um país marcado por divisões políticas profundas e fraturas sociais que nunca cicatrizaram direito. Ela também viveu nos Estados Unidos durante os anos tensos após o 11 de setembro, observando o abismo crescente entre campi universitários progressistas e cidades menores mais conservadoras — então ela sabe bem como é quando uma sociedade perde a capacidade de dialogar.
O problema, segundo ela, é que sem conversas reais entre pessoas de visões opostas, a divisão só tende a se aprofundar. Não se constrói coesão social no silêncio ou na bolha — e evitar o assunto difícil não faz ele desaparecer.
A mensagem no fundo é um alerta: o Reino Unido precisa recuperar a arte de discutir com calma e racionalidade, sem que isso vire guerra. Se os britânicos não voltarem a se sentar para conversar — mesmo que discordem — a cicatriz do Brexit vai continuar aberta por muito mais tempo.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE