Duas peças macabras produzidas para a televisão espanhola nos anos 70 estão sendo relançadas em formato de programa duplo: ‘La Cabina’ (1972) e ‘El Televisor’. A mais comentada da dupla é ‘La Cabina’, dirigida por Antonio Mercero, que dura apenas 35 minutos mas carrega um universo inteiro de angústia e surrealismo.
A história de ‘La Cabina’ é simples e perturbadora: um homem de meia-idade, vivido pelo ator cômico José Luis López Vázquez, entra em uma cabine telefônica que acabou de aparecer numa rua qualquer do subúrbio. O telefone não funciona e, pior, a porta trava — ele fica preso. Sem celular (afinal, era 1972, e a cabine era exatamente isso), ele só consegue gesticular desesperadamente pelo vidro enquanto uma multidão se forma do lado de fora.
O clima que se desenvolve é de um carnaval cruel: as pessoas tentam ajudar, mas de forma ineficaz, e uma atmosfera de deboche vai tomando conta da cena. Num momento marcante, o homem se vê refletido num espelho que um dos curiosos carrega — a imagem do burguês preso, ridículo, como um animal de zoológico. A crítica compara o espírito da obra ao de ‘Alfred Hitchcock Presents’ e ao cinema de Buñuel.
A resenha elogia ‘La Cabina’ com nota máxima, descrevendo-a como um pesadelo cômico e negro que consegue dizer muito sobre a ansiedade humana em pouquíssimo tempo. Já ‘El Televisor’, a outra peça da dupla — dirigida por Narciso Ibáñez Serrador —, recebe uma avaliação mais morna: a crítica sugere que ela exagera na mão e não sustenta o mesmo impacto.
O relançamento é uma boa oportunidade para quem quer entender o cinema de horror e o surrealismo produzidos na Espanha durante a era Franco, um período em que a tensão política encontrava válvula de escape justamente nesse tipo de obra perturbadora feita para a TV. ‘La Cabina’, especialmente, segue sendo uma das joias esquecidas da televisão mundial.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE