O historiador Marcus Böick, nascido em Aschersleben, na Saxônia-Anhalt, alerta que seu estado natal pode se tornar o primeiro na Alemanha a ser governado exclusivamente pelo AfD, o partido de extrema direita. Para ele, isso não é surpresa — é o resultado de décadas de abandono e ressentimento acumulado.
Böick conta que em 2004 ficou sem entender seus próprios conterrâneos ao ver uma multidão furiosa protestar contra as reformas trabalhistas do governo Schröder numa praça recém-reformada de Aschersleben. As pessoas gritavam ‘Nós somos o povo!’ e pareciam completamente tomadas por uma raiva que ele, mesmo conhecendo bem a cidade, não conseguia explicar.
Aquele momento revelou uma fratura profunda: mesmo com melhorias visíveis na infraestrutura do Leste alemão após a reunificação, o sentimento de abandono e de ser tratado como cidadão de segunda classe em relação ao Oeste nunca desapareceu de verdade. Esse ressentimento foi se acumulando silenciosamente por anos.
Agora, esse caldo de cultura emocional e político parece estar prestes a dar ao AfD uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt. Böick avisa, porém, que as promessas do partido são vazias e que uma gestão do AfD só tenderia a piorar uma situação já difícil para a população local.
O caso da Saxônia-Anhalt serve como alerta para toda a Europa: ignorar por décadas o sentimento de exclusão de uma parcela da população pode abrir espaço para que partidos extremistas capitalizem essa frustração — com consequências sérias e duradouras.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE