Dez anos depois do referendo que virou o Reino Unido de cabeça para baixo, o país ainda está tentando entender o que o Brexit significa — e as versões que aparecem na TV e nos jornais não ajudam muito. O colunista Aditya Chakrabortty, do Guardian, aponta que existem basicamente duas narrativas dominantes, e nenhuma delas chega perto da realidade das ruas.
A primeira narrativa é a dos bastidores de elite: quem disse o quê pra quem, quais amizades foram destruídas, que intrigas rolaram entre Boris, Cameron, Gove e companhia. O novo documentário da BBC, ‘Brexit: A Very British Civil War’, é o exemplo mais recente desse gênero — cheio de detalhes sobre acordos fechados em quadras de tênis e ameaças do tipo ‘vou te ferrar para sempre’, ditas por um então primeiro-ministro. É o Brexit como drama de clube universitário chique.
A segunda narrativa vem das salas de conferência: o reset diplomático de Keir Starmer com a União Europeia, pensado para reconectar o Reino Unido ao bloco de forma mais pragmática. É uma abordagem voltada para acordos e negociações formais, longe do cotidiano de quem vive os efeitos do Brexit no dia a dia.
Enquanto isso, Chakrabortty argumenta que Nigel Farage e a direita radical estão jogando um jogo completamente diferente — e mais eficaz politicamente. Eles exploram ressentimentos étnicos nas ruas, conectando o Brexit a questões de identidade e imigração de um jeito que ressoa com uma parcela significativa da população. Reform e Restore entendem esse terreno; os outros partidos ainda estão tentando alcançar.
A análise sugere que, uma década depois, o debate público sobre o Brexit continua travado entre a nostalgia de elite e a tecnocracia diplomática — enquanto as forças que realmente moldaram o voto em 2016 seguem ativas e organizadas. Quem quiser entender o que vem por aí no cenário político britânico precisa olhar para além das câmeras da BBC e das salas de reunião em Bruxelas.
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Fonte: GUARDIAN_EUROPE